sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Cruz






Padre Monte, 1928

Os profetas haviam anunciado que o Messias, aquele de devia vir ao mundo para salvar a humanidade de todas as agruras e de todo o pecado, seria coroado de glória e de honra.
Diziam que ele seria conquistador extraordinário das multidões, rei sublime dos mundos. Diante dele, todos os povos se prostrariam de joelhos, sentindo a majestade de sua grandeza, e admirando o esplendor do seu poder.
Teria esse Messias a terra por escabelo a seus pés; os astros formariam a sua coroa resplendente; seria o seu manto triunfal o azul dos céus e dos mares.
Mas, oh decepção! Ilusória miragem de tantos séculos perdidos de espere inútil! Triste realidade de um anseio infinito! Dolorosa angústia de corações cansados de sofrer!
O homem se deixa flagelar submissamente, que consentia em suportar humilhado o peso de uma cruz para nela morrer, que não tinha um gesto de revolta contra os seus sicários impiedosos, não podia ser o Filho de Deus há tantos séculos anunciado.
Não será possível que aquele ente desventuroso, escarnecido pela turba, conduzindo o instrumento ignominioso de seu suplício fosse na verdade o enviado dos céus.
Como poderia um Pai consentir no sacrifício, no martírio, na dor sem tréguas de um Filho Dileto?
Como, sendo o Eleito de Deus, se sujeitava a passar por tantas degradações, a ser açoitado vilmente, a padecer os maiores insultos e chufas de míseros mortais, a receber passivamente as chicotadas de seus algozes.
Não, não podia ser o Filho de Deus quem oferecia o espetáculo mais aviltante aos olhares sequiosos da multidão que viu sair do Pretório o infeliz condenado que a infâmia do Senedrim e de Pilatos entregava pusilânime à senha dos judeus.
Não, não podia ser o Filho de Deus aquela pobre criatura fraca e incapaz de tolerar sobre seus ombros o madeiro que a sentença miserável entendera de impor-lhe, como se os seus julgadores quisessem mostrar às gentes estupefatas que não tinha realeza nem origem divina aquele que arrastava para o suplício o instrumento da própria morte.
Mas, oh milagre dos milagres!
Aquele lenho aviltante tornou-se o cetro do mais poderoso dos monarcas.
Aqueles dois pedaços unidos de madeira tosca não tardaram em ser o símbolo da redenção humana.
Aquele madeiro pesado converteu-se no lampadário do mundo.
Aquele instrumento de suplício passou a constituir o farol da esperança e da imortalidade.
Aquele patíbulo infamante mudou-se em estandarte glorioso desfraldado no país da santidade.
Aquela árvore da morte plantada no cinto do Calvário representa o candelabro imenso da teologia.
Aqueles braços abertos à contemplação do mundo são o grande livro da Fé ensinando a todas as gerações as verdades eternas do amor e do sofrimento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário