Padre Monte, 1928
Os profetas
haviam anunciado que o Messias, aquele de devia vir ao mundo para salvar a
humanidade de todas as agruras e de todo o pecado, seria coroado de glória e de
honra.
Diziam que ele
seria conquistador extraordinário das multidões, rei sublime dos mundos. Diante
dele, todos os povos se prostrariam de joelhos, sentindo a majestade de sua
grandeza, e admirando o esplendor do seu poder.
Teria esse
Messias a terra por escabelo a seus pés; os astros formariam a sua coroa
resplendente; seria o seu manto triunfal o azul dos céus e dos mares.
Mas, oh decepção! Ilusória miragem de tantos séculos perdidos de espere inútil! Triste
realidade de um anseio infinito! Dolorosa angústia de corações cansados de
sofrer!
O homem se
deixa flagelar submissamente, que consentia em suportar humilhado o peso de uma
cruz para nela morrer, que não tinha um gesto de revolta contra os seus
sicários impiedosos, não podia ser o Filho de Deus há tantos séculos anunciado.
Não será
possível que aquele ente desventuroso, escarnecido pela turba, conduzindo o
instrumento ignominioso de seu suplício fosse na verdade o enviado dos céus.
Como poderia
um Pai consentir no sacrifício, no martírio, na dor sem tréguas de um Filho
Dileto?
Como, sendo o
Eleito de Deus, se sujeitava a passar por tantas degradações, a ser açoitado
vilmente, a padecer os maiores insultos e chufas de míseros mortais, a receber
passivamente as chicotadas de seus algozes.
Não, não podia
ser o Filho de Deus quem oferecia o espetáculo mais aviltante aos olhares
sequiosos da multidão que viu sair do Pretório o infeliz condenado que a
infâmia do Senedrim e de Pilatos entregava pusilânime à senha dos judeus.
Não, não podia
ser o Filho de Deus aquela pobre criatura fraca e incapaz de tolerar sobre seus
ombros o madeiro que a sentença miserável entendera de impor-lhe, como se os
seus julgadores quisessem mostrar às gentes estupefatas que não tinha realeza
nem origem divina aquele que arrastava para o suplício o instrumento da própria
morte.
Mas, oh
milagre dos milagres!
Aquele lenho
aviltante tornou-se o cetro do mais poderoso dos monarcas.
Aqueles dois
pedaços unidos de madeira tosca não tardaram em ser o símbolo da redenção
humana.
Aquele madeiro
pesado converteu-se no lampadário do mundo.
Aquele
instrumento de suplício passou a constituir o farol da esperança e da
imortalidade.
Aquele
patíbulo infamante mudou-se em estandarte glorioso desfraldado no país da
santidade.
Aquela árvore
da morte plantada no cinto do Calvário representa o candelabro imenso da
teologia.
Aqueles braços
abertos à contemplação do mundo são o grande livro da Fé ensinando a todas as
gerações as verdades eternas do amor e do sofrimento.

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