quarta-feira, 28 de março de 2012

Foi um tiro, Poeta!

O encontro entre o cineasta Billy Wilder e o poeta Vinícius de Moraes

Hollywood, 18 de abril de 1948. Em carta a sua mãe, D. Lydia, o poeta Vinícius de Moraes escreve pedindo-lhe com urgência que apure detalhes sobre um fato ocorrido em sua infância e sobre o qual ele lembrava de comentários em casa de Vovó Neném. Pedia o Vininha, no maior sigilo possível, que alguém da família pesquisasse nos arquivos da Biblioteca Nacional as notícias veiculadas na imprensa sobre um operário que caíra num esgoto no Rio de Janeiro e que morrera alguns dias depois, sem que ninguém o pudesse tirar de lá. “Dá um enredo formidável para um filme e tenho aqui alguém interessado na ideia, que me poderá dar bom dinheiro, que muitíssimo estou precisando”.

Vinícius estava em fase efervescente. Inspirado, escrevia “como um desalmado”. Foi a época, entre outros, de Pátria Minha, sensacional poema que exalta com críticas magoadas um Brasil cujos problemas acompanha de longe e que já não lhe alimenta ilusões políticas, mas que ama como só um exilado é capaz (“teu nome é Pátria Amada, é Patriazinha, não rima com mãe gentil.”). E assim, saudoso e inspirado, porém sempre em dificuldades financeiras, fazendo “bicos” que, como ele várias vezes admite, “o Itamaraty pode não gostar”, o poeta insiste em sua poesia. Não nascera para “lamber selos” e a sua alma livre pouco ou mal se acomodava ao cargo de diplomata. Assim é que ter alguém interessado em uma sua história, em um possível roteiro para o cinema enquanto escrevia a peça Orfeu, que parecia não ter fim nem muito menos data para ser encenada, era um presente dos céus. Animado, ele pauta, com detalhes, todas as informações que ele precisa para escrever o seu filme. “É a história do século, porque é simbólica dos tempos que correm, e cheia de tragédia e suspensão.”

A história não registrou se os dados foram coletados pela família e enviado a ele nos Estados Unidos. Pelo menos nada encontramos em sua correspondência tão bem organizada por Ruy Castro em Querido Poeta. O que sabemos do episódio ocorrido no Rio é o que o próprio Vinícius conta: um operário caíra no esgoto, houve mobilização popular, brigas entre os Corpos de Bombeiros de Rio e São Paulo, grande repercussão na imprensa e um homem morto ao final de muito burburinho em jornais e telejornais. Não fizemos nenhuma pesquisa sobre o caso. Dele tivemos notícias no filme lançado três anos depois da referida carta – A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder, em 1951, temperado com pitadas do imaginário religioso do Novo Mexico, onde a trama se desenrola. Todas as perguntas pautadas por Vinícius para que a família pesquisasse no Rio de Janeiro estão lá, respondidas. Genialmente o diretor escandaliza o expectador com uma crítica ferrenha a um jornalismo existente, manipulável, sensacionalista, descomprometido com a verdade e assassino. Não é à toa que o protagonista Chuck Tatum (Kirk Douglas) anuncia a manchete de sua última matéria: “Repórter deixa homem enterrado por seis dias.”

Sobre as relações entre Vinícius e Billy Wilder, também nada sabemos. O nome do Poetinha Camarada não aparece nos créditos do filme, de modo a imaginarmos que o roteiro foi vendido juntamente com o direito autoral uma vez que três outros mestres o assinam – o próprio Wilder, Lesser Samuels e Walter Newman. Mas pouco ou nada interessava ao diplomata atolado em dívidas cujo sonho revela em carta do mesmo ano ao amigo Manuel Bandeira era apenas - “Quero positivamente viver sem dívidas”.

Se é triste vender uma obra, não o é menos ter dívidas vencidas. Vinícius estrebuchava para viver. Mas que fique entre nós o registro para a justiça e satisfação do “branco mais preto do Brasil”, do poeta e diplomata Vinícius de Moraes: que ele intuiu profeticamente, informou-se com perspicácia e escreveu com elegância o roteiro do filme (ou da história) vendido. Mais uma vez ele estava certo e não era à toa que pedia em foma de apelo: “Minha mãezinha, preciso disso como de ouro. (…) Estou ardendo para começar a pegar a coisa porque, ou muito me engano, ou vai ser um tiro.”
Foi um tiro, Poeta!
Helenita Monte de Hollanda


sábado, 10 de março de 2012

As Mulheres da Minha Vida


É verdade que "pedra que muito se muda não cria limo". Sou dessas pedras. Muitas vezes endurecida pelas calosidades de árdua caminhada, sou dulcificada por seres humanos inesquecíveis que cruzam o meu caminho. Dra. Rapadura - dura e doce. Sempre achei graça por me dizerem assim. 

Mas há vantagens em tal caminhada - cruzei com muita gente boa. Pessoas que deixei em cidades onde provavelmente não voltarei, mas que fizeram de mim um ser humano menos egoísta servindo-me de exemplo na busca de ser alguém mais útil na construção de um mundo melhor. Conheci mulheres notáveis em todos os lugares por onde andei e é delas que quero falar aqui, é para elas que vai a minha homenagem na Semana Internacional da Mulher.


Mães, irmãs, filhas... Quantos braços abertos me acolheram? Quantas palavras sábias me deram luz? Quantos exemplos de força me fizeram humilde? Quantas demonstrações de superação me deram coragem?... Não há como não ser eternamente grata.

As mulheres da minha vida são as mulheres da vida e do mundo. São guerreiras vitoriosas em suas lutas diárias na educação dos filhos, na manutenção dos casamentos, na harmonia do lar, contribuindo com braços de ferro para o orçamento doméstico. São espíritos simples, sempre em prece de súplica e gratidão. São corações abertos, completamente livres para o amor e para o perdão, ocupados demais com a dramaticidade de suas vidas para se preocuparem com futilidades. São braços de ferro com mangas arregaçadas para qualquer tipo de trabalho necessário.

As mulhes que marcaram o meu viver pelas estradas da vida, guardam a alegria risonha de quem não tem medo. Suas cabeças erguidas não admitem o desrespeito. Conhecem seu valor e o valor de suas causas. Brigam como feras em defesa da honra própria, da dignidade própria. Dê-lhes montes de roupas para lavar, mandioca para ralar, roças para arar, plantar, colher, filhos para cuidar, gado para tanger... E lá estão elas sem tergiversar, sem queixumes. Alienadas? Não! Se injustiçadas, reclamam! Se exploradas, recusam-se! Se estimuladas, produzem! Se necessitadas, desdobram-se! Que mulheres! Não perdem a feminilidade nem uma saudável vaidade que muitas vezes me fez esperar que penteassem melhor os cabelos e até passassem batom antes de se deixarem fotografar. D. Lia comprou na feira um chapéu que lhe caísse bem para a colheita do feijão. D. Dete caprichou na padronagem da sombrinha que usava na roça em dias de muito sol. No frio e sem agasalho adequado, Fabiana improvisa com toalhas coloridas uma idumentária que a deixa tão linda!


As mulheres que conheci trabalham muito bem em equipe. Se D. Zilda vai colher a mandioca, é só avisar que logo 10-15 mulheres se reúnem para colher, descascar, ralar, lavar, fazer a puba, a farinha e a tapioca. A paga pode ser parte da produção ou retribuição em ajuda na plantação ou colheita. As coisas vão se resolvendo. Sabem vocês o que se dá embaixo de um pé de pau onde essas mulheres trabalham? Conversas, piadas, fofocas. Zombam umas das outras e de si mesmas, contam histórias do passado, rememoram lendas e causos contados pelas avós, ensinam umas às outras receitas, modos mais práticos de fazer coisas triviais. Adoram assuntos "picantes"! E para elas tudo que se refere a homem, a sexo, é suficientemente picante para provocar risinhos nervosos nas mais recatadas e grandes gargalhadas nas velhas sábias já consideradas acima de falsos moralismos e elegâncias inócuas.

Como são versáteis em seus saberes e habilidades! Em seus meios, são capazes de desenvolver grande variedades de ofícios, da lavoura a culinária, da lavagem de roupa ao artesanato, e o fazem enquanto cuidam de suas casas e dos filhos. E quantas linhas eu usaria para falar sobre sua criatividade, sua destreza para trabalhos delicados, sua "finura" para detalhes sofisticadíssimos das rendas e bordados...




Não, não me faltaram exemplos na vida! Conheci duas bisavós, Fausta e Maria, duas avós, Lia e Suzete, tenho uma mãe exemplar, Margarida, duas irmãs, Suzete e Sonja, que são mulheres da melhor cepa; tias e primas muito amigas, e todas as mulheres do mundo, do meu mundo, foram boas e belas. Agora tenho duas filhas, Lia e Teresa, e netas que ainda não são fatos, nem mesmo fetos, mas que já moram em meu coração dilatado, preparado no sagrado coração do arquétipo da Grande Mãe presente em todas as mulheres que cruzaram o meu caminho.




quinta-feira, 8 de março de 2012

Puro Deboche


Domingo, 4.3.2012, em passeio pela Península Itapagipana, em Salvador, vi de longe a cena de rapazotes em pleno exercício de zombaria e liberdade abaixando shorts e sunga e se lançando ao mar com as bundas de fora e cheios de risadas. Fiquei atenta e por três vezes esperei que voltassem do mar para a pedra de onde se lançavam e pude ver que não era um gesto exibicionista para garotas nem se tratava de uma atitude erotizada. Era puro deboche!

Em História de Nossos Gestos, o mestre Câmara Cascudo ensina que mostrar a bunda é gesto de ofensa e ilustra o seu delicioso texto com passagens bíblicas que corroboram o seu pensar. Que fosse! Em minha adolescência lembro de rapazes que saíam em grupos pelas ruas de Natal dirigindo seus carros e, em algum ponto, os "caronas" colocavam as bundas nas janelas surpreendendo e fazendo rir  passantes. Instigante era mesmo quando alguma menina reconhecia a bunda do irreverente brincalhão. Já vi garota em saia bem justa - "conheço esse bumbum e não lembro de onde..."

Se no passado o gesto era de tal maneira ofensivo a lembrar coisa do diabo (dizia-se que Martinho Lutero tinha visões do demônio mostrando-lhe as nádegas!), o que vi nos meninos da Praia de Monte Serrat foi nada mais que inocente zombaria. De quem zombavam? Ora, de si mesmos! Talvez, não podemos descartar tal possibilidade, zombassem de um improvável fotógrafo, de preferência um turista, que os levasse para casa em inocente nudez.
Helenita Monte de Hollanda





quarta-feira, 7 de março de 2012

Escultor de Areia



Não foi a primeira vez que vimos Antonio Cezar, escultor de areia, na Praia da Barra. Mas foi a primeira vez que Biaggio, com câmera na mão, deixou-se convencer de que valeria a pena uma conversinha com o artista. É claro que valeu! E ele, Biaggio, que acumula Talentos, agora edita pequenos videos para o nosso prazer. O resultado foi o clip acima. Sobre o artista saberá quem assistir ao vídeo.

domingo, 4 de março de 2012

O Clube do Bang Bang



Há uns dias assisti ao filme O Clube do Bang Bang. A despeito da maravilha produzida pelos quatro fotógrafos que protagonizam a história, em alguns momentos eles me pareceram um pouco como que os meninos de Liverpool, sendo que menos sérios e tratando com uma matéria infinitamente mais grave - as próprias vidas e as vidas dos outros.
Menos que os Beatles - uns Menudos e, em alguns momentos, Mamonas Assassinas. Não sei se a impressão foi passada pelo diretor e/ou roteirista. Eles não são mostrados com a força de personalidade de um "fotógrafo de guerra"(refiro-me a James Nachtwey). Parecem levianos. Capazes, mas levianos; geniais, mas levianos... João, pareceu-me o mais sério entre eles. É colocado, no começo do filme, como o fotógrafo genial. Mas é equilibrado. Não ganhou um Pulitzer. Ken viveu pouco e o filme não nos dá a conhecer as suas motivações. Kevin, talvez o que tenha produzido a melhor foto, a vencedora do "seu" Pulitzer, era de uma intensidade estranha, típica de uma certa alienação (as drogas) e premonitória do seu suicídio. Greg, um homem jovem e ousado, que estava lá na hora certa. Mereceu seu prêmio.
Seus trabalhos deram visibilidade mundial ao que eles viram, mas não mudaram o rumo de nada, nem mesmo de suas próprias vidas. Até o suicídio de Kevin, pelo que é mostrado em uma sua carta, era inexorável:


"Estou deprimido… Sem telefone… Sem dinheiro para o aluguel.. Sem dinheiro para ajudar as crianças… Sem dinheiro para as dívidas… Dinheiro!!!… Sou perseguido pela viva lembrança de assassinatos, cadáveres, raiva e dor… Pelas crianças feridas ou famintas… Pelos homens malucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policiais, carrascos…".

É... não se entra e sai impunemente de uma aventura dessa, muito menos se vivida da forma que ele a viveu.
É claro que a minha análise pode estar sendo injusta, mas é a partir de uma brecha que o filme deixa ao pinçar tão pontualmente as vidas desses quatro jovens sem nos deixar conhecê-los, diferentemente de o diretor de Fotógrafo de Guerra. Neste, passamos a admirar um homem que atua no mesmo ambiente que os outros quatro, mas de forma responsável, centrada, metódica, tecnicamente perfeita, também obstinada, sem oba-oba.
Gostaria de ter conhecido melhor os "meninos do clube" e não acreditar que eles apenas levaram a profissão como uma aventura. Eles seriam meninos de Woodstock, se fosse aquele o seu tempo. 
Infelizmente, não gostei do filme, embora tenha que me dobrar ao material fantástico que os fotógrafos produziram. O filme não deve ter sido justo com eles..
Helenita Monte de Hollanda



sábado, 3 de março de 2012

Festa de Iemanjá no Rio Vermelho - 2012




Não é "folk - lore". Não é uma caricatura. Encontro numa expressão antiga a minha própria impressão do festejo 2 de fevereiro no Rio Vermelho: "é coisa pra inglês ver". Mas não digo que não tenha sido uma bela festa! Fotógrafos, pelo menos, fizeram-na. Tudo muito colorido num dia que começou nublado e foi se iluminando. O "shopping de bênçãos" foi montado nas areias e os fotógrafos, cujo número parecia crescer em progressão geométrica a cada minuto, disputavam o espaço com os "fiéis". Figuras bem esdrúxulas com caracterizações no mínimo pitorescas tornavam o ambiente mais engraçado. Reverência, pouca. Música, muita. Tambores "sagrados" para turista tocar - e todo mundo querendo dar a sua "palhinha". Foi negro, bota um turbante e sai benzendo a precinho camarada com folhas de "poder" duvidoso, mas que ninguém conhece. E a concorrência foi grande e o assédio ao povo muito e algumas vezes agressivo! Banho de arroz, banho de pipoca, banho de sal grosso... De mar mesmo, algumas crianças e muitos bêbedos. Memorialista por grande devoção a Mnemosine, a deusa grega da Memória, lembrei de tempos sobre os quais apenas li e ouvi em músicas lindas!... Meu sangue, conquanto mestiço, tem cromossomos bem negros que "dançam" ao som de batuque. Mas ali não. Não ali.
Helenita Monte de Hollanda

Barbeiro em São Joaquim




Sob uma luz amarela fraca, oriunda da lâmpada incandescente do bocal preso no fio que se sustenta num pedaço de madeira tosco pregado à parede, o barbeiro começa seu dia cortando o cabelo de um garoto. Sua barraca é escura, apesar do dia radiante que faz lá fora. Mas, provavelmente ele não foi favorecido pela sorte ou não teve dinheiro para alugar um cafofo melhor na Feira de São Joaquim. Precisou se acomodar num canto escuro. Foi o que lhe sobrou e ele agradece a deus. A frase de Paulo, “Tudo posso naquele que me fortalece” colada na moldura superior do espelho da espécie de penteadeira velha onde acomoda seus apetrechos, talvez revele sua condição de evangélico. Esse edward mãos de tesoura tupiniquim pode ser um um crente. Ou então gostou da frase cristã, pelo seu caráter incentivador, de chamamento à luta, de enfrentamento das dificuldades da vida.

A imagem é muito reveladora de sua situação precária. No seu único móvel, encimado pela mensagem paulina, vemos borrifos de água de cheiro, um pote de brilhantina, uma bisnaga de creme de barbear amassadíssima, que já deu o que tinha que dar. No canto do “móvel” a canequinha onde uma mistura de creme de barbear e água acomoda o pincel de barbear de marca barata (talvez monaliza, com z mesmo) a ser usado no petiz para “fazer o pé” a navalha,como se diz no jargão dos barbeiros. Na parte de baixo da penteadeira três buracos irregulares que servem de “escaninhos” ele jogou mais algumas bisnagas e frascos de produtos do ramo.

É uma cena melancolicamente real. Que fica dramática pela fraca iluminação e o contraluz. Os fachos amarelos contornam o rosto do barbeiro, um mulato com seus 40 anos, aspecto de trabalhador, ar concentrado, com o cenho semi franzido pela atenção de quem manobra a tesoura com habilidade A luz nos permite vislumbrar o reflexo do garoto no espelho, que parece meio sonolento. O pai ou a mãe deve tê-lo deixado cortando o cabelo enquanto foi comprar quiabos ou “fato” na rua onde estão várias barracas que comercializam miúdos bovinos para os famosos pratos baianos. Deve fazer calor na barbearia, mas isso não é relevante. Quem vai ali sabe que o preço barato do corte embute o desconforto do ambiente. Uma cena do cotidiano das grandes e pequenas cidades brasileiras. Uma cena humana.
Biaggio Talento