O encontro entre o cineasta Billy Wilder e o poeta Vinícius de Moraes
Hollywood,
18 de abril de 1948. Em carta a sua mãe, D. Lydia, o poeta Vinícius
de Moraes escreve pedindo-lhe com urgência que apure detalhes sobre
um fato ocorrido em sua infância e sobre o qual ele lembrava de
comentários em casa de Vovó Neném. Pedia o Vininha, no maior
sigilo possível, que alguém da família pesquisasse nos arquivos da
Biblioteca Nacional as notícias veiculadas na imprensa sobre um
operário que caíra num esgoto no Rio de Janeiro e que morrera
alguns dias depois, sem que ninguém o pudesse tirar de lá. “Dá
um enredo formidável para um filme e tenho aqui alguém interessado
na ideia, que me poderá dar bom dinheiro, que muitíssimo estou
precisando”.
Vinícius
estava em fase efervescente. Inspirado, escrevia “como um
desalmado”. Foi a época, entre outros, de Pátria Minha,
sensacional poema que exalta com críticas magoadas um Brasil cujos
problemas acompanha de longe e que já não lhe alimenta ilusões
políticas, mas que ama como só um exilado é capaz (“teu nome é
Pátria Amada, é Patriazinha, não rima com mãe gentil.”). E
assim, saudoso e inspirado, porém sempre em dificuldades
financeiras, fazendo “bicos” que, como ele várias vezes admite,
“o Itamaraty pode não gostar”, o poeta insiste em sua poesia.
Não nascera para “lamber selos” e a sua alma livre pouco ou mal
se acomodava ao cargo de diplomata. Assim é que ter alguém
interessado em uma sua história, em um possível roteiro para o
cinema enquanto escrevia a peça Orfeu, que parecia não ter fim nem
muito menos data para ser encenada, era um presente dos céus.
Animado, ele pauta, com detalhes, todas as informações que ele
precisa para escrever o seu filme. “É a história do século,
porque é simbólica dos tempos que correm, e cheia de tragédia e
suspensão.”
A
história não registrou se os dados foram coletados pela família e
enviado a ele nos Estados Unidos. Pelo menos nada encontramos em sua
correspondência tão bem organizada por Ruy Castro em Querido
Poeta. O que sabemos do episódio ocorrido no Rio é o que o
próprio Vinícius conta: um operário caíra no esgoto, houve
mobilização popular, brigas entre os Corpos de Bombeiros de Rio e
São Paulo, grande repercussão na imprensa e um homem morto ao final
de muito burburinho em jornais e telejornais. Não fizemos nenhuma
pesquisa sobre o caso. Dele tivemos notícias no filme lançado três
anos depois da referida carta – A Montanha dos Sete Abutres,
de Billy Wilder, em 1951, temperado com pitadas do imaginário
religioso do Novo Mexico, onde a trama se desenrola. Todas as
perguntas pautadas por Vinícius para que a família pesquisasse no
Rio de Janeiro estão lá, respondidas. Genialmente o diretor
escandaliza o expectador com uma crítica ferrenha a um jornalismo
existente, manipulável, sensacionalista, descomprometido com a
verdade e assassino. Não é à toa que o protagonista Chuck Tatum (Kirk Douglas) anuncia a manchete de sua última matéria: “Repórter deixa homem enterrado por seis dias.”
Sobre as
relações entre Vinícius e Billy Wilder, também nada sabemos. O
nome do Poetinha Camarada não aparece nos créditos do filme, de
modo a imaginarmos que o roteiro foi vendido juntamente com o direito
autoral uma vez que três outros mestres o assinam – o próprio
Wilder, Lesser Samuels e Walter Newman. Mas pouco ou nada interessava
ao diplomata atolado em dívidas cujo sonho revela em carta do mesmo
ano ao amigo Manuel Bandeira era apenas - “Quero positivamente
viver sem dívidas”.
Se é
triste vender uma obra, não o é menos ter dívidas vencidas.
Vinícius estrebuchava para viver. Mas que fique entre nós o
registro para a justiça e satisfação do “branco mais preto do
Brasil”, do poeta e diplomata Vinícius de Moraes: que ele intuiu
profeticamente, informou-se com perspicácia e escreveu com elegância
o roteiro do filme (ou da história) vendido. Mais uma vez ele estava
certo e não era à toa que pedia em foma de apelo: “Minha
mãezinha, preciso disso como de ouro. (…) Estou ardendo para
começar a pegar a coisa porque, ou muito me engano, ou vai ser um
tiro.”
Foi um
tiro, Poeta!
Helenita Monte de Hollanda









