O momento que precede a Procissão do
Senhor Morto é dos mais piedosos. Os irmãos do Convento do Carmo abrem as suas
portas aos fiéis contritos que adoram e beijam a bela imagem do Crucificado
que, numa concessão rara, desce do altar-mor de onde contempla os homens que
passam.
Seguindo em direção ao Terreiro de
Jesus, pessoas de todas as idades sobem e descem ladeiras com esforço
gratificado pela honra de acompanhar seu Senhor em cada um dos passos de Sua
Paixão. Amiúde, para-se para ouvir a Palavra. Novas salvas de tiros e todos
seguem ao som de músicas piedosas. Ali, junta-se ao cortejo o Arcebispo Murilo
Krieger com seu séquito diocesano. Toma a frente da procissão e pronuncia
palavras autorizadas.
A chegada ao Paço Municipal marca o fim
da primeira parte do cortejo. A noite já chegou, prateada pela lua cheia. A
multidão começa a se dissipar mesmo durante a fala do arcebispo. A sorveteria A
Cubana enche-se em minutos. Estão todos cansados e sedentos. Jejuns quebrados,
comem e bebem com prazer já não interdito pela Igreja.
Muito me admiram as procissões. E
encantam! Sendo alguém que, como diz Câmara Cascudo, é mais da fé que do rito,
sou seduzida por movimentações populares, com especial predileção pelas de
motivação religiosa. Nesta, cantei muito, acompanhei-a do começo ao fim,
admirei a beleza plástica do evento, as forças dos rostos, a vibração da fé, o
amor que une o povo de Deus, a vaidade que o separa. No entanto, posso dizer
como o Pe. Antonio Vieira em seu fabuloso sermão do Terceiro Domingo da
Quaresma (1655): "Nem louvo nem lamento - admiro com as turbas."
Helenita Monte de Hollanda













