sábado, 3 de março de 2012

Barbeiro em São Joaquim




Sob uma luz amarela fraca, oriunda da lâmpada incandescente do bocal preso no fio que se sustenta num pedaço de madeira tosco pregado à parede, o barbeiro começa seu dia cortando o cabelo de um garoto. Sua barraca é escura, apesar do dia radiante que faz lá fora. Mas, provavelmente ele não foi favorecido pela sorte ou não teve dinheiro para alugar um cafofo melhor na Feira de São Joaquim. Precisou se acomodar num canto escuro. Foi o que lhe sobrou e ele agradece a deus. A frase de Paulo, “Tudo posso naquele que me fortalece” colada na moldura superior do espelho da espécie de penteadeira velha onde acomoda seus apetrechos, talvez revele sua condição de evangélico. Esse edward mãos de tesoura tupiniquim pode ser um um crente. Ou então gostou da frase cristã, pelo seu caráter incentivador, de chamamento à luta, de enfrentamento das dificuldades da vida.

A imagem é muito reveladora de sua situação precária. No seu único móvel, encimado pela mensagem paulina, vemos borrifos de água de cheiro, um pote de brilhantina, uma bisnaga de creme de barbear amassadíssima, que já deu o que tinha que dar. No canto do “móvel” a canequinha onde uma mistura de creme de barbear e água acomoda o pincel de barbear de marca barata (talvez monaliza, com z mesmo) a ser usado no petiz para “fazer o pé” a navalha,como se diz no jargão dos barbeiros. Na parte de baixo da penteadeira três buracos irregulares que servem de “escaninhos” ele jogou mais algumas bisnagas e frascos de produtos do ramo.

É uma cena melancolicamente real. Que fica dramática pela fraca iluminação e o contraluz. Os fachos amarelos contornam o rosto do barbeiro, um mulato com seus 40 anos, aspecto de trabalhador, ar concentrado, com o cenho semi franzido pela atenção de quem manobra a tesoura com habilidade A luz nos permite vislumbrar o reflexo do garoto no espelho, que parece meio sonolento. O pai ou a mãe deve tê-lo deixado cortando o cabelo enquanto foi comprar quiabos ou “fato” na rua onde estão várias barracas que comercializam miúdos bovinos para os famosos pratos baianos. Deve fazer calor na barbearia, mas isso não é relevante. Quem vai ali sabe que o preço barato do corte embute o desconforto do ambiente. Uma cena do cotidiano das grandes e pequenas cidades brasileiras. Uma cena humana.
Biaggio Talento

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