Sob
uma luz amarela fraca, oriunda da lâmpada incandescente do bocal
preso no fio que se sustenta num pedaço de madeira tosco pregado à
parede, o barbeiro começa seu dia cortando o cabelo de um garoto.
Sua barraca é escura, apesar do dia radiante que faz lá fora. Mas,
provavelmente ele não foi favorecido pela sorte ou não teve
dinheiro para alugar um cafofo melhor na Feira de São Joaquim.
Precisou se acomodar num canto escuro. Foi o que lhe sobrou e ele
agradece a deus. A frase de Paulo, “Tudo posso naquele que me
fortalece” colada na moldura superior do espelho da espécie de
penteadeira velha onde acomoda seus apetrechos, talvez revele sua
condição de evangélico. Esse edward mãos de tesoura tupiniquim
pode ser um um crente. Ou então gostou da frase cristã, pelo seu
caráter incentivador, de chamamento à luta, de enfrentamento das
dificuldades da vida.
A
imagem é muito reveladora de sua situação precária. No seu único
móvel, encimado pela mensagem paulina, vemos borrifos de água de
cheiro, um pote de brilhantina, uma bisnaga de creme de barbear
amassadíssima, que já deu o que tinha que dar. No canto do “móvel”
a canequinha onde uma mistura de creme de barbear e água acomoda o
pincel de barbear de marca barata (talvez monaliza, com z mesmo) a
ser usado no petiz para “fazer o pé” a navalha,como se diz no
jargão dos barbeiros. Na parte de baixo da penteadeira três buracos
irregulares que servem de “escaninhos” ele jogou mais algumas
bisnagas e frascos de produtos do ramo.
É
uma cena melancolicamente real. Que fica dramática pela fraca
iluminação e o contraluz. Os fachos amarelos contornam o rosto do
barbeiro, um mulato com seus 40 anos, aspecto de trabalhador, ar
concentrado, com o cenho semi franzido pela atenção de quem manobra
a tesoura com habilidade A luz nos permite vislumbrar o reflexo do
garoto no espelho, que parece meio sonolento. O pai ou a mãe deve
tê-lo deixado cortando o cabelo enquanto foi comprar quiabos ou
“fato” na rua onde estão várias barracas que comercializam
miúdos bovinos para os famosos pratos baianos. Deve fazer calor na
barbearia, mas isso não é relevante. Quem vai ali sabe que o preço
barato do corte embute o desconforto do ambiente. Uma cena do
cotidiano das grandes e pequenas cidades brasileiras. Uma cena
humana.
Biaggio Talento

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